Back to International Life Histories

Ana Carolina Araújo

Meus contatos mais marcantes com os meios de comunicação tiveram relevância mais emocional do que de outro tipo. Na minha memória de infância e adolescência- por sinal bastante completa- os mídia aparecem com freqüência, embora nunca tenha tido interesse específico pelas notícias. Elas aparecem, nesta história, como elementos de analogia a momentos pessoais.

O primeiro instante em que registrei concretamente a existência dos meios de comunicação foi em 1982. Meu avô sofria de leucemia linfática crônica. Como já se sentisse bastante cansado, passava a maior parte do tempo sentado ou deitado. A imagem é bastante nítida para mim: meu avô sentado no sofá da sala de estar, contígua à da televisão, esticando a cabeça para ver o Jornal Nacional, e quando eu ia passar por aquela porta, ele me fazia cócegas. A passagem é curta, mas importante, considerando-se que meu avô morreu meses depois, é que eu ainda guarde essa lembrança, embora tivesse apenas dois anos de idade.

Ao três anos de idade mudei-me de casa pela terceira vez, e com essa mudança apareceu Sueli, a nova empregada. Passava as tardes em sua companhia, enquanto meus irmãos estavam na escola e meus pais trabalhando. O meio da tarde era a hora em que ela passava as roupas. Forrava a mesa da área de serviço com o cobertor da minha mãe e ligava o rádio em OM, que hoje chamamos de AM. Eu ficava ali, à sua volta, brincando. Ela sempre me colocava ao alcance da visão. O ferro de passar roupas ia esquentando e espalhando o calor no ambiente. Na minha imaginação todas as coisas ficavam alaranjadas, cor que eu associava àquele calor irritante. A importância dessa recordação é um misto de desgosto e preconceito em relação à rádio AM que me acompanha até hoje, desde a qualidade do som até o conteúdo programático dessas emissoras.

Em 1993 estudava na Escola Paroquial Santo Antônio, em Brasília. Por volta do meio do ano surgiu o boato de que o jornal da escola começaria a ser feito pelos alunos. Naquela época eu estava bastante interessada em escrever; além do gosto pessoal por poesia, vinha me saindo muito bem nas aulas de redação. Pouco depois de saber que os alunos seriam escolhidos por uma comissão de professores, fui chamada para trabalhar no projeto. Fiquei muito feliz, pois sempre achava, e até hoje, que não era reconhecida o bastante no que fazia. Trabalhar no "Jornal Santo Antônio" era estar entre os melhores alunos, além de ter acesso quase irrestrito a todas as áreas antes limitadas aos professores. Nosso trabalho era bastante variado: fazíamos entrevistas, tirávamos fotografias, cobríamos eventos, redigíamos matérias, organizávamos classificados, recolhíamos textos livres para publicação. Como em tudo que parece bom demais, passamos por algumas dificuldades. Muitas vezes nossa autonomia era questionada, quando como, por exemplo, a diretoria da escola queria definir a pauta de um determinado número do jornal. No final do ano seguinte, com nossa formatura, o jornal acabou. Quer dizer: contrataram uma pequena produtora para editar um jornal tendencioso. A experiência foi muito enriquecedora se vista pelo prisma da experiência nova, da realidade do compromisso com o trabalho.

Ainda no Santo Antônio, por ser repórter escolar, tive meu lugar garantido num passeio com vagas limitadas: a visita à sede do principal jornal de Brasília, o Correio Braziliense. Começamos com uma palestra sobre o funcionamento de um jornal. Depois fomos visitando cada departamento, da redação à diagramação, até chegarmos à prensa. Aqueles bobinas pesadas, que para muitos ali significavam apenas um monte de papel, para mim eram algo inefavelmente fascinante. O cheiro do papel, das tintas, o barulho das máquinas, tudo aquilo me encantou. Na escola, o passeio foi o comentário da semana. Embora não me lembre disso com freqüência, quando o faço, toda a sensação da visita é retomada, trazendo à tona minha identificação de longa data com a comunicação escrita.

Aos 16 anos de idade participei da peça de teatro "Fora da Ordem" escrevendo o roteiro e atuando no palco. A peça falava da violência á criança desde a Revolução Industrial até os dias de hoje. Fizemos questão de mostrar todo o tipo de violência que pode ser cometida contra a criança, não nos limitando à violência física, sexual etc. Tratamos, inclusive, da agressão dos meios de comunicação à formação do caráter infantil. Apresentamos um espetáculo bem produzido para atingir um público específico: jovens estudantes de uma escola particular. Acho que esse relato se encaixa na proposta da história de vida pois foi uma forma de transmitir informações importantes a respeito da história da sociedade a um grupo potencialmente alienado, ato que me fez sentir bastante útil.

Essencialmente, sem extensões desnecessárias, essa é minha história com os meios de comunicação. Meu gosto, como se pode inferir ao longo do texto, o meu gosto é mais pelo sentido amplo da comunicação do que especificamente pela comunicação jornalística. Penso que a partir de agora, com a maior proximidade com os meios de comunicação, eles caracterizarão cada vez mais em pontos de referência para a futura história da minha vida.

Back to International Life Histories