Apresentação
Nesta História de Vida, falarei dos fatos transmitidos pelos meios de comunicação de massa que influenciaram profundamente no meu modo de ser, de pensar e agir. Tentarei, caso a minha memória não me "dê bolo" e funcione a todo vapor, mencionar o máximo de fatores que contribuam para a melhor compreensão dos episódios e que justifiquem a escolha destes. Serão relatos totalmente pessoais, sem nenhuma influência externa ou invenção de "realidades". Apesar de não gostar de escrever sobre mim, vejo a realização deste trabalho como uma atividade importantíssima para o melhor relacionamento entre alunos e professora, portanto de grande validade.

 
 Momentos Inesquecíveis
Em 23 de janeiro de 1981, eu, Davi Lemos Santos, nasci. Nascimento, acontecimento tão sublime, foi, com certeza, muito mais significativo que o ser originado. Estou escrevendo estas palavras tolas porque estou sem idéias melhores para começar a escrever a História de Vida. Eu também estou com sono, já é tarde e vou dormir. Amanhã, caso desperte a minha criatividade, tentarei redigir algo que preste. Pronto! Já acordei, tomei café e vou deixar de "embromar". Começarei a relatar os momentos mais importantes da minha vida, aliás relatarei, como manda a professora, os momentos marcantes ou de grande influência da comunicação, dos meios de comunicação em minha vida. Vamos lá! Eu tinha mais ou menos quatro ou cinco anos de idade, ainda não havia despertado interesse em nada que passasse na televisão, rádio ou qualquer outro meio. Minhas diversões eram, ainda, a velha e boa bola de futebol, carrinhos de rolimã (saía à toda velocidade, descendo uma ladeira até me "esborrachar" num muro e subir, por mais incrível que pareça, sorrindo), brincar de pega-pega, de polícia e ladrão, de médico ... Em suma, brincava como qualquer criança pobre que não possuía outros meios para entreter a vida, a alma. Mas, numa certa manhã, eu estava sentado no sofá, esperando minha mãe colocar o café-da-manhã na mesa, quando meu pai, para não me deixar sem o que ver ou fazer, ligou a televisão, e eu senti aquele "baque". Aquela era a coisa mais linda vista por mim até aquele instante da minha curta estada neste planeta. Era a abertura do programa infantil Balão Mágico, com todos aqueles malabaristas, palhaços e bichos de circo; com Simony, Jairzinho e aquele que me deixou espantosamente encantado, um bonequinho do Cometa Halley. Foi o meu primeiro "herói televisivo" na infância e representou o começo da minha paixão pelos meios de comunicação. Depois do Cometa, vieram Spectroman, Ultraman, Superman, He-man e vários outros MANs. Após esta primeira ou estas primeiras experiências, todos os programas assistidos por mim não representaram nada de importante. Eu adquiri, apenas, o hábito de assistir diária e compulsivamente aos desenhos, aos vários programas infantis (Xou da Xuxa, Bozo, Vovó Mafalda, Clássicos Disney e etc.). Transformei-me em mais uma dessas pessoas doentes por televisão, necessitando de doses diárias (talvez "drogas" diárias) de programação inútil para satisfazer meu vício. Aquele menino acostumado a se "esborrachar" no muro acabara de entrar para um exército de telespectadores alienados. Com o passar dos anos, além dos programas infantis, comecei a me interessar por outras modalidades, saindo um pouco da televisão para procurar novas tendências em outros meios. Mas não teve jeito! A televisão continuou sendo a preferida, pois o rádio eu só ligava para ouvir música e os jornais só abria para ver as pouquíssimas notícias que interessavam às crianças normais ___ e eu era uma criança normal. Eu detesto escrever sobre mim, tenho medo de me elogiar exacerbadamente. Mas eu realmente possuo muitas características especiais ___ tá vendo aí, não resisti à tentação, elogiei-me. Vou prosseguir e tentarei me controlar, porém será uma tarefa árdua. Passando pela primeira fase da infância, chegando à pré-adolescência, um evento televisivo chamou muito a minha atenção: a Fórmula Um. Eu gostava muito de ver os carros àquela velocidade, as disputas acirradas; adorava, não sei o porquê, ver as batidas, as capotagens, as manobras corretas ou erradas, fantásticas ou ridículas. Contudo o que eu gostava mesmo era ver os pilotos brasileiros (Nelson Piquet ou Ayrton Senna) chegarem em primeiro lugar e serem campeões ___ no caso, só tenho gravado na memória os títulos de Ayrton Senna. O costume que era do meu pai passou para meus irmãos e posteriormente para mim (eu sou o caçula, vim ao mundo dez anos depois dos meus três irmãos), ou seja, em pouco tempo, tornou-se tradição reunir-se frente ao televisor e torcer "desesperadamente" pelos brasileiros. Um fato precisa ser relatado: é evidente a torcida que fazíamos pelos brasileiros, contudo, pelo menos na minha casa, nós não enxergávamos Ayrton Senna como o herói brasileiro do momento, apenas torcíamos fervorosamente pela vitória dos nossos compatriotas ___ torcíamos para os pilotos do mesmo jeito que desejávamos sucesso para qualquer brasileiro em qualquer outra modalidade. Num determinado domingo, dia de Fórmula Um, reunimo-nos para assistir àquela corrida. Tínhamos grande esperança, Senna largaria na "pole position" e estava agora na Willians, melhor carro da temporada ___ era a temporada de 1994. A corrida começou e Senna estava em primeiro. Tudo se apresentava bem, quando, de repente, o piloto brasileiro não conseguiu completar uma curva (a Tamburelo) e foi, como nas minhas brincadeiras de infância, se "esborrachar" no muro. Porém aquela brincadeira não teve graça nenhuma, aquela foi a última curva da vida de Senna. Ayrton acabara de morrer. Eu, diante daquela situação, fiquei totalmente sem ação; apenas olhava para os meus familiares, esperando a reação deles. De repente, toda aquela comoção nacional, aquele choro coletivo, aquela verdadeira "coisa de louco". Naquele momento, confundia-se o sofrimento tupiniquim com o sofrimento da Globo ou, mais especificamente, com o sofrimento de Galvão Bueno. O sensacionalismo da Globo foi copiado pelas outras emissoras e, o pior de tudo, várias pessoas passaram a idolatrar Ayrton Senna, inclusive eu. Não estou dizendo que não devemos ter heróis, contudo não devemos fazer da morte de um ser humano o princípio do seu reinado. Ele era herói de alguns, não de todos. A pior tristeza de um herói é ter seu mérito reconhecido postumamente. Neste momento, tomei ciência do poder de manipulação dos meios de comunicação, fazendo-nos, até mesmo, criar ídolos não nossos. Continuando a falar dos momentos marcantes na minha vida, relatarei um terceiro acontecimento de grande importância: a conquista da Copa do Mundo de 1994. Vínhamos da morte recente do também herói recente Ayrton Senna. Estava chegando a Copa, e os brasileiros precisavam de um título mundial, há tanto tempo perseguido, para compensar a perda de um herói. Contudo a árduo caminho ao título havia iniciado em 1993, nas Eliminatórias. Foram jogos difíceis de assistir, verdadeiras torturas: o empate inicial com o Equador, a derrota para a Bolívia e, finalmente, a vitória por dois a zero em cima do Uruguai, com dois gols de Romário, "carimbando" a nossa ida para os Estados Unidos. O Brasil estava classificado e, na rua, explodiam festas e a expectativa para o início da Copa. Foram meses, do fim das Eliminatórias ao fim da Copa, em que todos queriam ser Parreira (técnico, na época, da seleção), definir o time, implantar a tática perfeita para que ganhássemos o título. Então chegou a Copa e o nosso primeiro jogo foi contra a Rússia. O nervosismo tomava conta de todos e o meu era muito mais acentuado, pois a partida já havia iniciado e eu estava preso num engarrafamento, na região da Feira de São Joaquim. Cheguei em casa no segundo tempo, o Brasil já vencia por um gol e havia a maior festa na minha residência: muita pipoca, farofa e água para não engasgar. A seleção terminou vencendo por dois gols. A cada jogo transmitido pela televisão, acontecia a mesma coisa, contagiava o ar a mesma ansiedade. O time vencia mas não convencia, o medo de mais uma campanha desastrosa crescia, os brasileiros não mostravam confiança no esquema de Parreira e Zagalo. Tínhamos o melhor futebol, entretanto não apresentávamos a constância necessária. Finalmente, havíamos chegado à final e, nela, enfrentaríamos a Itália. Na hora do jogo, ligamos a "caixa maravilhosa" para assistir a mais uma transmissão de final de Copa, e esta era a mais importante desde a de 70. Depois daquele chute de Baggio, explodiu uma festa maior que qualquer carnaval, e toda a tensão presente deu lugar ao alívio generalizado. O melhor fator de o Brasil ter conquistado a Copa foi o peso que eu consegui tirar da minha consciência: eu achava ser o culpado, o grande "pé-frio" impedidor do sucesso da seleção nas Copas. Felizmente, após alguns anos, consegui curar a paranóia que me tomava. Maluco tem cada uma! Até agora, eu só falei de programas infantis e de modalidades esportivas. É claro, os momentos mencionados foram marcantes, representaram instantes inesquecíveis da minha presença neste plano. Todavia eu também observava, e ainda observo, a situação social e como alguns veículos de comunicação tratam de tal questão. Como todos os cidadãos conscientes sabem, a condição social e, também, a política e a econômica são complicadas, injustas, inaceitáveis e precisam ser modificadas. Eu moro nas proximidades da Península Itapagipana, região de Salvador onde ainda é mais evidente a disparidade de condição de vida, logo, pelo menos neste ponto, não foi através da TV que eu fiquei sabendo da gravíssima situação vivida por nós. Tomado o conhecimento da situação, passei a me interessar a acompanhar os vários telejornais, ver como eles mostravam a realidade do país e confesso não ter ficado muito contente com o que vi. É o seguinte: aqui na Bahia, existe um velho gordo, com cabeça branca e dente falhado. Ele pensa ser o dono da Terra de Todos os Santos e procura fazer tudo para enfiar isto na cabeça dos baianos, a fim de continuar o seu governo ditatorial e déspota, propagando a i> 

Transfer interrupted!r" e escondendo da população a "Bahia que o povo não quer". Mas como ele faz isso? Esta é uma pergunta muito simples de responder. Este senhor é muito rico e tem, infelizmente, uma rede de comunicação (TV Bahia, Correio da Bahia) com a qual manipula as notícias, divulgando apenas o interessante para sua perpetuação no poder e fazendo do jornalismo uma profissão tão podre quanto a dos agiotas, testas-de-ferro, seqüestradores ... São verdadeiros estupradores da verdade. Ver o telejornalismo da indústria da manipulação do velho gordo, além de estimular o meu senso-crítico e me fazer enxergar o lado ruim da prática jornalística, instigou-me a aprender o bom jornalismo, sério e imparcial; ver esta pornografia televisiva, fez-me querer reavivar a bela prática do jornalismo. Esta foi a enorme contribuição que a TV Bahia me deu: constatar a sua prática leviana do jornalismo e fazer florescer em mim o meu dom ___ e este dom é escrever de forma honesta para tentar reafirmar, trazer à tona a verdade tão vilipendiada. Terminado o meu desabafo (eu precisava contar para alguém os meus descontentamentos com a situação da Bahia e, mais especificamente, com o momento do jornalismo baiano, mesmo sendo para uma pessoa desconhecida), pretendo contar sobre o ser que, depois de Jesus Cristo, Maria e meus familiares, mais influenciou no meu modo de ser, pensar e agir. Eu falarei de Renato Russo, o maior compositor, letrista e roqueiro já visto no Brasil. Eu tinha mais ou menos dez anos e ouvia em algumas festas que meu irmão me levava, nas rádios ou quando ele colocava no aparelho de som as músicas do grupo de rock Legião Urbana. No princípio, eu prestava atenção apenas na "batida" ___ eu ouvia também também vários outros grupos de rock ___, não me interessavam as letras das canções. Mas chegou um dia que eu parei para ler o conteúdo das letras: fiquei maravilhado. Era latente a sinceridade naquelas palavras, me encantava ainda mais ouvir Tempo Perdido, Andréa Dória, Acrilic on Canvas, Mais do Mesmo, 1965 (Duas Tribos) ... É incrível a maneira como eu me identificava com os pensamentos do poeta Renato Russo. É evidente que eu ouvia e continuo ouvindo outros gêneros de música, outros cantores, procurando absorver o máximo de construtivo de cada letra, contudo me fascinada a maneira simples e aberta de Renato quanto ao tratar de assuntos polêmicos: sexo, drogas, religião, psicoses, realidade brasileira. Ele agia como eu acho certo, ele agia honestamente, sem por máscara nele ou nas mazelas vigentes. Só que um dia, quando eu acabava de colocar os livros em cima da mesa havia chegado do colégio naquele instante ___, eu ouvi no plantão da TV Globo:Morre no Rio de Janeiro o líder da Legião Urbana ... Aquilo foi como um tiro no peito. O que doeu mais foi a cobertura não dada pela imprensa ao caso ___ apenas a MTV fez uma homenagem digna ao grande guru da geração jovem dos anos 80 e 90. Este foi o período mais triste da minha vida, pois um pouco antes havia morrido, também, uma tia muito querida, uma outra Maria muito importante em minha estada neste plano. Esta é uma parte da minha história de vida, parte marcada fortemente pelos meios de comunicação. Procurei contar os cinco fatos anteriores não isoladamente, mas no meio de situações contemporâneas a eles: como eu via o mundo, como era a minha relação com o meio e etc. Muitos outros fatos, acontecimentos da comunicação de massa me marcaram também, só que, como não foram tão cruciais e como é pré-requisito não colocar fatos irrelevantes neste relato, não entraram.

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