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Felipe Leal Alves Xavier

INTRODUÇÃO

A presença dos meios de comunicação e dos produtos culturais é tão constante em minha vida que se torna difícil identificá-la e analisá-la por partes. As lembranças aparecem vagas e incompletas, por isso a fidelidade máxima nos relatos torna-se uma tarefa difícil. A memória pode ser distorcida por minha vontade de dar um sentido ao que me marcou. Espero, porém, que a intenção de produzir um texto franco compense essa desconfiança.

PARTE I - "A GUERRA DO FIM DO MUNDO?"

Ilha de Itaparica, começo de 1991. Minha família alugara uma casa de veraneio numa rua perto da praia de Ponta de Areia. Amigos de meus pais já estavam lá, o que facilitou o meu entrosamento com seus filhos e, consequentemente, com o resto dos jovens com quem viria a conviver. O verão estava indo muito bem: praia, maior liberdade de movimento, ampliação do meu universo de conhecidos; enfim, férias. Porém, a inevitável presença da televisão logo me anunciaria que, numa longínqua terra de nome Oriente Médio, um ditador louco - Saddam Husseim - estava prestes a provocar uma guerra. Silenciosamente, eu tentava entender; antes que conseguisse, começou a Guerra do Golfo. Por que os jornais falavam tanto daquilo? Comentava-se muito a respeito do petróleo, de razões econômicas, da possibilidade de uma crise... Nada que satisfizesse minha curiosidade de garoto com nove anos de idade. Eu precisava de algo maior, mais trágico. Foi então que, de alguma forma - sempre tive uma imaginação indescritível e inexplicável - cheguei à conclusão de que, se algo grande explodisse por lá, com certeza acabaria com tudo. Com tudo! Começou então a minha guerra, a do fim do mundo. As noites de Itaparica ficaram diferentes, todo silêncio era interpretado de outra maneira. O pensamento do fim fazia-me pensar no que viria depois, se é que viria. Então lancei-me ao desespero quieto, pois tinha receio de falar de meus medos. Na televisão, passavam imagens desfocadas, gravadas à noite com câmeras especais. A artilharia antiaérea aparecia como riscos luminosos rasgando o verde provocado pelas lentes. Aquilo não esclarecia nada; ao contrário, somente aumentava minha confusão. Não conseguia evitar meu pensamento mórbido quando me encontrava sozinho, mas as atividades diárias e os novos relacionamentos tornavam mais leve minha visão de mundo. Não lembro de quando soube do fim do litígio, presumo que tenha me sentido aliviado. A informação veiculada pela mídia trouxe-me mais do que pretendia. Como as informações não vinham acompanhadas de explicações no meu nível de entendimento, criei as minhas. A partir daí, foi uma viagem interior rumo a tudo que era desconhecido para mim. Tomei consciência da minha enorme ignorância, e temia por imaginar-me condenado a ela. Os grandes mistérios estavam ali, evidentes, e só eu parecia incomodar-me com eles. Todos sabiam de tudo, menos eu? Até hoje questões como essa me acompanham, mas de outra forma. O certo é que tudo poderia ter sido diferente se não houvesse o conflito; ou melhor, se não houvesse a televisão...

PARTE II - "À SOMBRA DAS LETRAS IMORTAIS"

Um recente encantamento pelo futebol, a curiosidade pelos livros, a falta do que fazer... Eis as razões que devem ter me levado a ler uma coletânea de crônicas esportivas de Nélson Rodrigues que cobria a época das três primeiras copas vencidas pelo Brasil. O título - "À Sombra das Chuteiras Imortais" -, além de ter denominado uma das colunas em jornal feitas pelo escritor, remete à dimensão lírica que o futebol ganhava sob seu olhar. Eu deveria ter uns quinze anos, o suficiente para me sentir lendo crônicas de um passado bastante remoto. Foi uma aula de história e de estilo. Os jogadores não tinham funções, mas personalidades. Eles ganhavam mística. O senso comum era visto como um refúgio da mediocridade, através do qual o próprio povo brasileiro considerava-se incapaz de vencer. Segundo o cronista, era o "complexo de vira-latas". Ao amor pelo futebol-arte, ele aliava seu nacionalismo crítico. Gostava também do brilho individual de alguns atletas, era o caso de Garrincha. "Garrincha está acima do bem e do mal.", dizia sobre o jogador do Botafogo, mesmo sendo torcedor "nato e hereditário" do Fluminense. Eu, acostumado a ver a bobagem politicamente correta dos comentaristas esportivos da atualidade, fiquei dominado. Além disso, passei a ver o futebol moderno como atrasado. Aonde estava o espetáculo de que tive notícia da existência depois de tanto tempo de ignorância? Só havia câmeras tentando buscar um ângulo em que as jogadas parecessem mais bonitas e locutores usando "clichês" para criar mitos que nunca duravam mais de uma temporada. As chuteiras imortais pareciam estar penduradas em algum lugar longe dali. Apesar de não ter perdido de todo minha admiração por jogadores que nunca vi em ação, hoje admito que a mágica talvez viesse mais da letra que da bola.. Tendo se dispersado meu interesse pelo futebol, ficou o gosto pela leitura. Os valores pregados por Nélson Rodrigues àquela época influenciam até hoje a minha visão de mundo. A desconfiança em relação ao senso comum, a admiração aos talentos natos, a coragem de desafiar a mediocridade, penso que tudo isso deve ser seguido. O seu estilo desafiante parecia perguntar-me: "E você, meu caro, tem 'complexo de vira-latas'?". Toda vez que percebo ser positiva a resposta, descubro ser hora de buscar outro rumo. Lógico que a estratégia não funciona sempre: não sou nenhum Garrincha...

PARTE III - "HUMANISTA SEM QUERER"

A biblioteca do meu avô sempre me reservou surpresas. Cada vez que olhava, displicentemente, para as estantes, achava algo interessante que estava ali esperando, pacientemente, ser descoberto. Do Kamasutra até a Bíblia, já vi de tudo por lá. Houve uma época em que me interessei por Filosofia, li algumas coisas a respeito, mas nunca cheguei a estudá-la direito. De qualquer forma, foi uma tentação ver à minha frente o "Discurso do Método", de Descartes. Resolvi lê-lo, por que não? Sentei-me na cadeira de repouso coberta por um couro de onça e comecei. Depois de um tempo, chegou meu avô e, discretamente, tomou suas atividades. Quando ia saindo, e meu pai chegando, comentou: "Olha aí, lendo Descartes... É um humanista mesmo!". Em plenos anos noventa, eu, um adolescente de dezesseis anos, humanista? Aquilo soava estranho. Tanto que acabou roubando a minha atenção do livro que, na realidade, era enfadonho demais para ser lido até o final naquele momento. Mas agora já estava feito, eu fora taxado por estar com certo livro na mão. Vindo do meu avô, então, aquilo transformava-se quase numa responsabilidade. Sim, ele estava dizendo por dizer, sem pensar, mas aquilo me marcou. Por algum tempo, fiquei pensando no sentimento que tive na hora, que chamarei de indescritível por incompetência vocabular. Não cheguei a me tornar um humanista por causa disso, mas passei a entender melhor as diferenças entre essência e forma. Por um instante, assumi uma pose, mesmo sem ter o respaldo para isto. Um livro que eu não li, mas detentor de uma intocável consistência mitológica em nossa sociedade, exerceu seu poder sobre mim, influindo em minhas relações pessoais. Este exemplo, bastante leve, levou-me a refletir sobre uma visão mais crítica em relação ao mundo cultural e a seus produtos.

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