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Juliana Protásio B. Pereira

Eu deveria ter por volta de seis anos de idade e a única coisa que via na televisão era o colorido dos desenhos animados e dos apresentadores. De repente, todo o horário da programação era tomado para informar sobre a morte de um homem chamado Tancredo Neves. Eu não compreendia porque o pessoal lá de casa chorava tanto, pois ele nem chegou a ser "presidente de verdade", não era alguém tão conhecido na TV, pelo menos para mim. E eles mostravam os funerais, um clima de tristeza tomava tudo e eu, na minha alegria infantil só queria ver os desenhos, sem entender nada daquela comoção.

Passado isso, entendia um pouco mais sobre vida e morte e me sobressaltava sempre que tocava a musiquinha do Plantão da Rede Globo. Era sempre um prenúncio de tragédia, fosse com pessoas anônimas ou famosas. Assim, acompanhamos dramas de desabamentos, mortes famosas e, algumas vezes, mudanças políticas econômicas.

Nesta época, no fim da infância, iniciando a adolescência, descobri um certo gosto pela morbidez. Mesmo inconscientemente esperava que falassem de acidentes e mortes terríveis, não tinha consciência de o quanto aquilo era ruim. O as únicas colunas que me interessavam nos jornais impressos eram as programações de TV, os quadrinhos e, avidamente, as páginas policiais, que ainda não tinham tanto apelo à carnificina quanto hoje, mas me interessavam tanto quanto os filmes de terror.

No meio deste período, comecei uma busca mais espiritual e percebi a verdadeira importância da vida e das pessoas, aprendi a separar a ficção trágica da realidade cruel. Enquanto eu buscava a religiosidade seguida ortodoxamente, estoura a Guerra do Golfo. Tomada por grande sentimento de pesar, rezava terços inteiros, pedindo a Deus que não permitisse a mortandade e dormia pedindo para que aquilo acabasse. Assistia aos telejornais esperando boas notícias do fim da guerra, e ficava aflita com a imprensa sensacionalista, que dizia que o Oriente Médio tinha petróleo suficiente para tocar fogo no mundo inteiro, decretando seu fim.

Comecei também a ter contato com algumas revistas "adultas e sérias". Procurava sempre as colunas de humor, arte e cinema. Me divertia com o Jô Soares na Veja, as charges políticas em geral e começava a tentar igualar meus gostos pessoais aos dos críticos, julgando serem eles os mais inteligentes e cultos dos mortais.

Achei bonito também, no início da década de 90, os jovens que foram às ruas, mobiliando-se contra um governo corrupto. Acreditava que eles seguiam seus ideais políticos, como aqueles do passado, que arriscavam até suas vidas. Não conseguia ver ainda toda a manipulação que cercava aqueles eventos, não desconfiava da falta de consciência daquelas pessoas. Acreditava piamente na força da integridade política do presidente da UNE e via um futuro para o país, ainda que não soubesse ao certo o que aquilo significava.

O Brasil era ícone de incompetência, mas nos esportes ainda se via algo de bom. Ayrton Senna me fez despertar a atenção para a Fórmula 1. Assistia corridas, treinos, entendia tudo de carros e corridas e achava terrível a injustiça da máquina da Williams, que dava vitórias aos pilotos que não eram tão "bons de braço". Então, em 1994, a mais perfeita combinação era anunciada: Senna correria na Williams. Por vários motivos técnicos e quiçá o próprio destino, nenhuma vitória. Então, o avesso: a trágica morte do piloto. A princípio não absorvi a notícia, até que o corpo chegou no Brasil, e junto com ele o bombardeio de teorias, histórias e informação em geral sobre o acidente. No final do dia do enterro, eu, em minha casa, tão distante do local, começava a chorar, como nunca tinha feito pela morte de ninguém. Tamanha foi a importância que dei à toda informação sobre aquela morte, que pensei até em cursar Medicina e me especializar em neurocirurgia!

Naquele mesmo ano, em compensação, surpreendida, vi o Brasil, já tão acostumado com derrotas e decepções, vencer a Copa do Mundo. Fiquei muito feliz, por acreditar que aquele "circo" animaria mais o povo, fazendo o brasileiro se identificar com aquela vitória e ver que outras também eram possíveis. Era esta a campanha difundida pelo país: era uma espécie de recompensa por todo mal que vivíamos.

Em nenhum dos dois casos, na época, pude perceber a pressão mediática que me conduzia àqueles sentimentos. Em parte também foram sinceros, afinal aqueles eram ícones nacionais para mim, uma menina de 14 anos, mas o choro e o riso não tinham tanta ligação com aqueles acontecimentos, como eu acreditei.

Aos poucos fui diminuindo as doses semanais de "Rede Globo" e comecei a conhecer programações mais úteis, como a da TVE, que mostrava a cultura nacional e acrescentava conhecimento com criatividade; e a MTV, onde eu encontrava o tipo de música e produção visual que me interessavam, além de pinceladas da cultura underground que eu gostaria de ter acesso.

Então foi noticiada uma outra morte, não tão badalada na imprensa, mas que realmente me abalou e apesar disso não causou choro convulsivo ou qualquer emoção desmedida. Era meu verdadeiro ídolo, Renato Russo, do Legião Urbana, que partia. Apenas com desânimo, reflexão e incredulidade, acho que pela primeira vez encarei a morte de forma pessoal e realmente sincera.

A partir de 1997, quando ganhei o computador e acesso à InterNet, comecei a me separar mais da TV e me aproximar da comunicação escrita. Comecei a fazer amigos em outros estados, trocar idéias e experiências, procurar informações que normalmente não teria. Valorizei ainda mais o ato de escrever, ao trocar e-mails e observar emoções e o estilo de cada pessoa, a identidade na escrita.

Neste mesmo ano, participei de um amplo trabalho escolar, que envolvia o resumo de livros e montagem de uma peça. Nosso grande desafio era transmitir o conteúdo dos livros, com qualidade plástica e artística, fugindo do método didático. Tive de escrever partes da peça, tendo sempre em mente o tal desafio. Além disso, enfrentei também de lidar com muitas pessoas e idéias divergentes, e aprender a forma de aproveitar tudo isso e fazer o trabalho fluir. Com isso, vi que as pessoas gostavam do que eu escrevia e que também tinha certa facilidade de expor minhas idéias e fazer com que fossem aceitas.

Depois do sucesso com este trabalho, continuei escrevendo poesias e alguns textos humorísticos que passava para os amigos na InterNet ou usava para fazer presentes de aniversário. Então chegou 98, e eu teria de decidir em que curso tentaria entrar através do Vestibular. Enquanto pensava nisso, me tornei uma espécie de "Imprensa" do 3º Ano, narrando de forma bem humorada alguns dos fatos que aconteceram com as turmas durante o ano. Meus colegas adoravam, sempre esperavam as histórias e riam muito com o enfoque que eu dava a elas. Mais uma vez, fiquei contente com o resultado de um trabalho.

Assim, depois de ter descoberto essa "vocação", acabei, aos quase 19 anos, vindo parar aqui neste curso, e não sei para onde vou depois...

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