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Roberta Pinto

A TV, o rádio, os jornais... De todos os meios de comunicação, a TV foi o que mais deixou gravadas na memória as cenas da história de minha vida. Mas, dos acontecimentos que hoje lembro imageticamente, poucos foram profundamente compreendidos.

Devo à leitura dos impressos meu interesse mais completo por alguns temas. O ato de ler sempre me impulsou a buscar o entendimento além dos fatos, coisa que a TV ou o rádio não me provocam. As imagens bastam-se. A imaginação, a capacidade de abstração, pelo contrário, levam-me à reflexão.

Hoje, tento observar com olhos de ontem acontecimentos passados. Missão impossível. Tentarei, ao menos, lembrar do olhar que tive um dia.

Eleições 1990. Fernando Collor de Mello, Lula, Mário Covas, Paulo Maluf, Enéias,... Eu havia entrado no ginásio. Uma nova etapa começava. Aquelas pessoas mais velhas, as meninas usando batom, os casais de namorados, os cadernos universitários ­ lembro do cheiro de tudo isso. Lembro do cheiro dos panfletos que nós, colegas desde os quatro anos de idade, saíamos distribuindo nas ruas debaixo da chuva, que era constante na época.

Um dia saímos da aula e fomos passando por cada comitê ao longo da avenida Getúlio Vargas, em Feira de Santana. A comissão de estudantes ficava esperando do lado de fora enquanto dois entravam para pedir o material de propaganda. Mas o nosso interesse era ficar com aqueles adesivos de carro. O único candidato que realmente iríamos ajudar era o tucano Mário Covas, aquela figura simpática que nos ganhou por unanimidade. Estávamos entre os 11, 12 anos. Por quem fomos influenciados até chegar a essa escolha? Meu pai votou em Maluf, minha mãe em Collor. Aliás, meus exemplos quase nunca partiam de casa.

Munidos com o material de propaganda, saíamos correndo debaixo da chuva, parávamos em certos pontos, abordávamos as pessoas e entregávamos os panfletos. Missão cumprida. Até que chegaram as eleições do colégio: votar nos orgulhou. Covas ganhou as eleições escolares. Mas assistíamos a sua derrota a cada pesquisa realizada pelos jornais. Se fosse para Covas perder, que ganhasse Lula. E o jingle "Lula-la" tornou-se o mais cantado por nós.

Guerra do Golfo. De início, a única coisa que sabia era que brigavam por petróleo. A TV só me passava imagens, que tiravam toda a minha atenção do que os repórteres diziam. O que mais me impressionava eram aquelas câmaras capazes de captar imagens no escuro. As explosões geravam luzes esverdeadas na tela. A TV não me acrescentava nada além dessas impressões. Até que comecei a ler sobre a guerra nas revistas. A imagem dos americanos como "homens-de-boa-intenção" não se desfez, mas pude entender melhor o porquê da guerra.

Impeachment. Lembro quando Collor convidou os brasileiros para irem às ruas vestidos de verde e amarelo. A agitação dos estudantes em torno da passeata onde todos sairiam de preto fez-me querer participar, mesmo sem entender o processo da forma como hoje entendo. Queria fazer parte daquela multidão, mas meus pais diziam que era loucura, que tudo acabaria em tiro. Eles não viveram o movimento estudantil dos anos dourados, por serem muito jovens, nem viveriam aquele momento, por se sentirem velhos. Acabei vendo tudo pela TV, frustrada.

Eu estava no ápice da minha rebeldia e aqueles jovens gritando, segurando faixas, fez-me remeter aos anos da ditadura, ou melhor, à imagem que tinha deles a partir dos seriados da Globo. Sempre quis viver naquele tempo: a militância dos universitários, as músicas. Talvez toda aquela vontade de participar da passeata dos "caras pintadas" não passasse de fantasia mesmo. Nunca seria igual à Passeada dos Cem Mil. E eu estaria gritando mais pelo êxtase coletivo do que pela minha consciência política na época. Não quero isentar-me da culpa, mas a minha geração, aversa ao partidarismo, contribuiu para o meu preguiçoso interesse pelas coisas políticas durante a adolescência.
 
Bolsa de valores, 1998. Os jornalistas anunciavam em tom catastrófico a crise que atingia o mundo. Mas nenhum deles fez-me entender seus mecanismos. Os gráficos dos jornais e os boxes Saiba mais sobre... da Folha de S. Paulo eram bem-intencionados, mas pouco estimulantes. Guardava os jornais para ler no ônibus, mas qualquer curva um pouco mais brusca esgotava a minha paciência e concentração.

A consciência pesava quando assistia aos telejornais. A notícia instântanea ajudava-me menos ainda e eu pensava que, se tivesse lido aquele maço de papel jogado ao chão em minha frente, poderia estar falando a mesma língua da Lilian W. Fibe, inclusive gesticulando com a mesma eloquência dela...
 
 Queda do Muro de Berlim, Plano Real, Movimento dos Sem Terra, reeleição de Fernando Henrique Cardoso, morte de Airton Sena e da Princesa Diana, desastre que matou os integrantes da banda Mamonas Assassinas, visita do papa à Cuba. Para falar desse passado mais próximo, poderias citar esses acontecimentos. Mas fatos menores, que repercutiram vez ou outra nos meios de comunicação, deixaram-me marcas mais profundas.

A mutilação das jovens africanas impressiona-me sempre. O pouco que as revistas, jornais e telejornais trazem sobre o assunto chama-me a atenção de imediato. Num primeiro momento, achava aquilo um absurdo. Em pleno final do milênio, moças, quase crianças, são obrigadas a perder o prazer sexual da forma mais cruel possível ­ sem anestesia, seus clítores são arrancados por mãos armadas de giletes, pedaços de vidro ou qualquer outro material cortante, sem nenhuma higiene. A cicatrização não é menos dolorosa: suas pernas são presas com uma atadura e alguns ainda têm a grande idéia de utilizar fezes de animais como cicatrizante.

Umas morrem, outras conseguem fugi. Mas as que sobrevivem à mutilação não transparecem descontentamento. Esse é o segundo momento da minha compreensão. Como julgar uma cultura tão distinta da nossa? Como determinar o que é ético ou não? Para outras culturas, não seria uma violência compatível o adestramento das menininhas que concorrem a uma vaga no grupo É o Tchan mirim?

Muitas outras imagens ainda estão gravadas e poderia relatá-las. Mas poucas histórias sei contar com a mesma veemência que contaria depois de ler um livro. Apenas o jornalismo que não se limita ao fato pode ser uma página relevante deste grande livro da história.

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